JORNAL: O GLOBO
DATA: 19/01/2004

Os bastidores da TV que roda inteiramente em IP
Elis Monteiro

Junte as funcionalidades do ICQ como troca de arquivos e bate-papo em tempo real, a rapidez e a diversidade de canais do iRC, transmissão de imagens, vídeos e texto em alta velocidade e uma webcam localizada em cima do monitor e você tem uma plataforma completa para videoconferência e aplicações de e-learning. É assim que funciona a IP.TV <www.ip. tv>, solução tecnológica para envio e recebimento de dados via satélite lançada no final do ano passado. Uma visita aos corredores do prédio, localizado em Botafogo, é uma aula de alta tecnologia.

Educação à distância pode ser a aplicação principal da plataforma, mas não é a única possível. A velocidade e a qualidade da videoconferência por IP pode ser usada por empresas públicas ou privadas. Depois de constatar o filão de mercado, a IP.TV começa a traçar uma estratégia de penetração no mercado, que inclui o usuário doméstico. Através de uma antena instalada em prédios ou em condomínios de casas, os usuários-telespectadores poderiam, já a partir do segundo semestre deste ano, ter acesso ao software e ao acesso via satélite oferecidos pela empresa.

IP.TV já negocia com operadoras ADSL

O preço ainda é um grande empecilho. O investimento médio mensal para uso full time é de R$ 11.500, mais a aquisição e instalação da antena parabólica do tipo bidirecional (para recepção e transmissão de sinais) que opere em banda KU. A instalação do software multimídia para interação dos condôminos completaria o pacote. A esperança fica por conta de a IP.TV funcionar via acesso ADSL, dispensando o uso da antena. Negociações com a Telefônica e com a Telemar já estão em andamento para a oferta da nova modalidade de serviço, adianta o empresário Eduardo Giraldez, diretor-presidente da IP.TV.

— Neste caso, o custo do minuto é rateado por muitos usuários e o preço acaba saindo menor que o de um telefonema interurbano — explica Eduardo.

A primeira grande cliente da IP.TV foi a Universidade Virtual do Maranhão, que já está usando o acesso via satélite e o software de videoconferência para a capacitação de 500 professores espalhados por todo o estado. A operadora também é a responsável pela transmissão de aulas virtuais para vinte conveniadas do curso de pós-graduação Executivo-Júnior da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Neste caso, um professor dá sua aula no estúdio enquanto é filmado por três câmeras tradicionais. Para a aula, que tem todas as vantagens da interatividade virtual, ele tem em mãos tanto recursos multimídia de som e imagem quanto o velho quadro para exposição de suas aulas. Com um detalhe fundamental: através do software, ele pode enviar, por videoconferência, arquivos feitos em Power Point, além de vídeos em alta qualidade.

Prédio tem sala de edição e até um camarim

Além dos estúdios de gravação, o prédio da IP.TV tem também uma sala de edição que usa computação gráfica, uma sala para transmissão das imagens, uma sala de call center e até um camarim para preparação dos professores.

— O professor controla todos os recursos do software e decide quem tem acesso ao canal — diz Antonio Faya, diretor de tecnologia operacional da IP.TV.

O recurso descrito acima funciona como no iRC. No software o usuário visualiza uma série de canais. Se estiver autorizado pelo moderador, pode trocar impressões e pedir mais informações ao professor. Foi no iRC que os programadores que criaram o software da IP.TV buscaram a inspiração para bolar o sistema batizado de IRM (IP Relay Media), protocolo que controla a negociação de mídia, ou seja, quem está ou não autorizado a se conectar nas redes específicas e o que é transmitido e em que formato. Através do software, o moderador do canal de TV tem o poder de “ceder a vez” ao usuário que quiser contribuir com o programa em exibição, seja com vídeo, áudio ou mensagens. Ainda existe a opção “salvar o desktop”: o professor pode capturar a tela de seu desktop e enviar para todos os usuários presentes no canal.

O software ainda oferece a opção “quadro digital”, espécie de mousepad que simula um quadro de sala de aula para que o professor possa rabiscar desenhos ou gráficos. Perfeito, portanto, para as temidas aulas de matemática.

— O software é como se fosse um browser. Funcionamos transparentes em qualquer circuito, até em conexão discada — diz Eduardo.

Plataforma pode rodar em Windows e em Linux

Os programadores da IP.TV também quiseram testar a viabilidade do serviço para plataformas Linux e acabaram descobrindo um bug que não permitiria o funcionamento do software. Decidiram consertar o bug e enviaram o patch para os mantenedores oficiais do Linux, que implementaram as mudanças. Mas, por enquanto, nada de IP.TV versão Linux para desktops. No momento, ela será só para empresas.